gimba @ 09:22

Seg, 25/05/09

Mais um episódio de sexo e promiscuidade, no ambiente sofisticado, luxuoso e cheio de abundância que é o Restelo, em Lisboa… Um clássico! Uma peça de antologia!

Introdução
Vindo de um périplo de vários anos pelo estrangeiro, em países tão distantes como o Irão, os Estados Unidos ou a Venezuela, o Engº “L” assentou definitivamente em Lisboa, para exercer a especialidade que tanto o fez viajar – projecto e instalação de sistemas de ar condicionado – uma ciência complexa que só meia-dúzia de entusiastas domina (qualquer pessoa com um mínimo de termo-consciência sabe que quase todos os sistemas de ar condicionado estão mal concebidos e mal calibrados, e  por isso temos frio - ou calor - no cinema, no banco, no supermercado, etc... Mas adiante, que isto agora não interessa para o caso).
Durante alguns anos tive o privilégio de trabalhar com o Engº “L”, climatizando casas – e famílias – topo-de-gama. Crême de la crême. A nata do avionete-set lisboeta. Só gente chiquíssima e finíssima! E então, a história é esta:

Começa a história
Cansado de negócios duvidosos - motivados pelos anos conturbados que se seguiram à revolução dos cravos, o Engº “L” decidiu, no seu regresso à pátria, trabalhar somente para a classe A, vulgo, alta sociedade: Gente rica, sem medo de pagamentos a pronto, sem dívidas, sem dúvidas, e sem incómodos. O Engº “L” nunca desceu abaixo da bitola “Restelo”, “Lapa”, ou “Quinta da Marinha”. Grandes famílias, grandes fortunas, e – óbviamente - altas casas!

O local do crime
Mais uma vez, o Restelo. Mais uma moradia de mais uma pessoa podre de rica: Uma viúva atraente que trazia sempre consigo tanto ou mais ouro que o próprio Tutankhamon! Neste caso não se tratava de uma obra de raiz, mas sim a remodelação da sua brutal vivenda. Uma intervenção milionária à qual ainda seria acrescentada uma nova piscina – aquecida e iluminada – e um plano paisagístico com espécies botânicas exóticas, devidamente controladas por um sistema “inteligente” de rega. Coisa de uns poucos tostões…

Os figurantes
Todas as quintas-feiras havia reunião-geral, com toda a gente ligada à empreitada: Construtor, mestre de obras, electricistas, carpinteiros, técnicos de vários equipamentos – que era o nosso caso – e uma indescritível decoradora que assinava o projecto de interiores. Ai, a decoradora! Muito coquete, muito “tia”, muito “imprensa cor-de-rosa”, de voz irritante, a fazer tilintar os lustres e as cristaleiras, com as suas sentenças estéticas duvidosas, à la Escola António Arroio - ou pior – mas sempre com aprovação magnânima da proprietária!

Um set de luxo...
Para se ter uma ideia da excentricidade do empreendimento, basta dizer que a sala-de-jantar era oval (!),  revestida a carvalho lacado em tons de azul celeste com frisos dourados – uma pepineira indescritível de esbanjamento e ostentação, fruto da imaginação delirante da “tia”, alimentada pela fortuna inesgotável da nobre e egrégia viúva-lusitana que lhe encomendara o trabalho! E era assim em toda a casa - e é aqui que a história aquece:
A decoradora decidiu que o  hall, divisão inútil que só serve para dizer “olá tia” e “adeus tia”, e pendurar alguns casacos, teria como principal motivo “estético” as quatro estações – representadas por outras tantas estátuas propositadamente encomendadas ao mestre João Cutileiro!… Já se vê pelo exemplo, o velho-riquismo que envolveu toda a empreitada! Dinheiro não é problema. «Estou farta do Ferrari, agora apetece-me um Lamborghini – ou um Maserati – ou os dois!»…

A história aquece!
E uma bela manhã, no meio da poeirada da obra – ainda muito no princípio, com tijolo à vista, e o chão de cimento ainda abaixo da cota definitiva - eis que chegam as preciosas estátuas, devidamente acondicionadas em caixotes, e atadas como múmias (outra vez o fantasma de Tutankhamon!) com cordas de sisal a apertar o papel pardo dos embrulhos. Iriam descansar muito tempo antes de ser colocadas nas suas posições definitivas, nos quatro cantos da extravagante entrada. Votadas ao abandono pelos operários, que em geral são pessoas avessas a coisas de arte, as esculturas sempre me despertaram a atenção. Um dia não resisti. Sou grande apreciador da obra de Cutileiro - da grande estátua de D. Sebastião, em Lagos, às miniaturas dos “casais no chuveiro” - e aquelas mulheres de pedra (nuas, decerto - João Cutileiro só pode!) despertaram os meus desejos mais libidinosos!

Uma cena hardcore
Aproveitando esse dia solarengo de primavera, em que o pessoal da obra almoçava no esventrado jardim da vivenda, decidi abrir um dos embrulhos e contemplar devotamente a obra do artista! Desfiz os nós, afastei o papel pardo, e, do meio das palhinhas, qual menino Jesus, surgiu-me um corpo nú, de mulher, em tamanho natural. Sem cabeça e sem membros. Só o corpo. E que corpo… Magnífico, maciço, redondo, erótico! Uma beleza! Desproporcionada, de alguns ângulos, perfeita, de outros, aquela mulher de pedra mexeu comigo – que não sou de pau! Atirei-me a ela sem cerimónia, em grandes apalpões, que esta “rapidinha” é por minha conta! A figura, de mármore branco bem polido, apresentava mamilos escuros sólidamente incrustados nas divinas tetas. A zona genital era de outra pedra, preta, exterior ao corpo, e  enrugada numa deliciosa  estilização de floresta púbica. E foi justamente quando eu estava com o dedo “no gatilho”, sem tirar nem pôr, que a pedra negra se descolou do corpo alvo! Fiquei com um púbis  de João Cutileiro na mão!

Um herói em apuros
Que tremenda situação… Eis-me numa vivenda no Restelo, de gente rica e respeitável, a meter o nariz (neste caso, o dedo!) onde não sou chamado, em flagrante delito, com uma pedra púbica dum lado e uma estátua violada do outro, sem saber o que fazer. Como é que vou sair desta? Isto é pior que ser surpreendido em pleno acto por um marido ciumento!
Tive que usar o meu sangue-frio, e convocar todos os meus neurónios para resolver a questão ainda a quente. A solução mais dramática seria confessar o crime à dona da casa, (com toda a vergonha de que o escandaloso acto me encheria), e a senhora teria que chamar o mestre Cutileiro - que como todos sabemos habita em Évora -  para vir de propósito a Lisboa colocar, desculpem a expressão, “a pentelheira no sítio”! Que embaraço... Isso seria o fim da minha carreira. Chumbado na alta-sociedade! Um pecador, tarado sexual, que se atirou a uma estátua de pedra, ‘tá a ver, tia?

Tudo se resolve!
A outra solução, bem mais prática e suave, foi a que escolhi em definitivo: Usar  todos os meus conhecimentos estéticos adquiridos na Escola António Arroio (sim, também lá andei! - e também no Brookhaven College, no Texas!), e colocar a pedra no sítio mais apropriado, segundo os meus próprios critérios estéticos, sem dizer água-vai, e sem receber direitos de autor, uma vez que a estátua passou a ter dois autores: o mestre João Cutileiro, que dum matacão de mármore de Estremoz esculpiu aquele corpo de sonho, e o mestre Gimba, formado no Texas - mas sem exercer! E assim foi: Ainda às escondidas, fui buscar a cola de contacto destinada às condutas de ar, e zás! Uma camada na pedra negra, outra no branco alvo da zona clito-vulvar, os cinco minutinhos da praxe, para o produto ficar em condições de proporcionar aderência vitalícia, e eis-me de novo com “o dedo no gatilho”, desta vez com toda a força, a pensar «nunca mais sais daqui, ouviste?»

Sem deixar pistas...
Suspirando de alívio, com a consciência agora tranquila, despedi-me da mulher, e voltei a embrulhá-la o melhor que pude, arrumando-a no sítio, ao pé das outras, sem levantar suspeitas. Nunca a cheguei a ver no poiso definitivo porque que os instaladores de ar condicionado quase nunca chegam a ver a obra pronta.  Uma vez o sistema carregado e as grelhas colocadas, faz-se uns testes de frio, fica tudo a trabalhar na perfeição, e ala moço, para outra obra, que a seguir a nós vêm os estucadores…

Epílogo
Na realidade, nunca mais a vi. Mas penso que ela lá estará ainda hoje, num dos cantos da entrada nobre, sem ninguem saber que a sua zona púbica teve intrevenção de outro artista que não o mestre Cutileiro - que nunca na vida soube deste episódio! Conclusão: ou ele se enganou na dose de cola, ou usou uma cola diferente da minha, ou então – e esta é a explicação mais plausível – a passarinha que me ficou na mão era sem dúvida a da estátua que representava o Outono! ‘Tá a ver, tia?



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