gimba @ 09:02

Sab, 18/07/09

O haxixe - pó esverdeado resultante da fricção da perigosíssima planta Cannabis numa espécie de peneira, e depois prensado para ocupar menos espaço nos apertados meandros desse jogo do gato e do rato chamado narcotráfico – é uma substância de uso corrente em todo o mundo, e Lisboa não foge à regra. Pelo contrário: a dois passos do estreito de Gibraltar – funíl físico para a passagem dessa “droga maldita” da África para a Europa, Lisboa é a capital mais próxima, e mesmo que não fosse, ocupa uma posição estratégica privilegiada no seu escoamento por terra e mar.

Por isso não é estranho que a percentagem de alfacinhas que usa este “produto estupefaciente” seja bastante alta. Fenómeno recente – contemporâneo da revolução de Abril – entrou de vez nas estatísticas da cultura e costumes em Portugal. Numa sociedade esmagada pelo peso do passado, e pressionada por todos os desafios do presente e do futuro, todos os escapes são poucos, e depois do tabaco e do álcool, o xamon*, apesar de teóricamente ilegal, aparece no topo das preferências dos lisboetas no que toca a “crimes e escapadelas”.
Digo “teóricamente”, porque na prática ainda é ilegal, e a sua distribuição e comercialização estão proibidas. Estas actividades ilícitas são castigadas pela lei em vigor com muitos anos de prisão. E todos os dias lemos nos jornais que fulano tal foi detido na posse de "X" doses de haxixe (esta das “doses” de haxixe também é para rir…). Mas  por muito que as autoridades actuem, há de existir sempre uma inesgotável rede clandestina bastante complexa que garante o abastecimento regular e garante stocks permanentes, numa hierarquia geométrica, desde as redes internacionais organizadas até aos vendedores solitários nas esquinas do país profundo.
No meio desta grande cadeia, em Lisboa existe David (nome fictício) – um traficante de pequenas a médias quantidades que opera ao domicílio e leva directamente o produto ao consumidor. Um caso raro num panorama em que outros com o seu seu perfil comercial arriscam em cafés, bares discotecas e outros suterfúgios. Seja como for, todos eles são a última estação dessa grande linha que vai das vastas plantações do Magreb até aos pulmões (ou estômago) de muitos portugueses…
Mas o caso de David é raro, porque a sua clientela não é constituída por mortais comuns: David é quem fornece haxixe à nata dos criadores da Capital, meus senhores! Músicos, actores, bailarinos, cineastas, jornalistas, publicitários, arquitectos, estilistas, eu sei lá… Uma lista impressionante de gente conhecida, de todos os sectores da cultura e do mundo do espectáculo lisboeta recorre aos seus serviços, e a inspiração de muitos trabalhos - e de grandes exitos artísticos e profissionais - vem do seu incansável trabalho de distribuição da erva mágica…
Em todos os filmes que vemos, em toda a música que ouvimos, em cada jornal que lemos, em cada peça a que assistimos, há uma ligação a David. Na realidade, David está por detrás de muitos sucessos, de muitos brilharetes, de muito boas ideias, e é em parte responsável pelo caudal de produção artística – e não só – do melhor que Lisboa deu ao Mundo. Sempre que vemos alguém receber um prémio – seja em festas de bairro, em galas de casino ou nas  condecorações do 10 de Junho -  podemos ter a certeza que David está por detrás dele, contente por saber que a sua poção proibida contribuiu para o desfecho feliz de mais uma história de sucesso!
Agora eu pergunto: este homem é um criminoso? É um perigo para a sociedade? Devia ser apedrejado em público, deixado às mãos da “justiça popular”? Merece a privação do cárcere e uma tatuagem facial invertida para quando se vir ao espelho ler na testa até ao dia da sua morte “O crime não compensa.”? Não, meus senhores. A resposta é negativa. Pelo contrário! Este homem merece um prémio pela sua contribuição decisiva para a cultura portuguesa! Merece a recompensa devida por ser co-autor de muita obra-prima da qual não tem créditos oficiais! Poucas individualidades se podem dar ao luxo de interferir directamente, e de forma tão positiva em tantas criações diferentes, e em triunfos tão distantes como um programa de TV, recordista de audiência ou os versos de qualquer poeta maldito. Pouca gente se pode gabar de ter uma influência directa nos estímulos que logram chegar aos cinco sentidos dos portugueses mais sensíveis! Este homem roça o genial!
Foi a pensar nisto que telefonei um destes dias ao presidente da Câmara municipal de Lisboa, expondo a minha teoria: há que criar uma medalha de mérito municipal – clandestina, claro - especialmente para David, e entregá-la numa cerimónia também clandestina com a presença de autoridades de estado, e pessoas ligadas às artes e ao espectáculo (numa noite de lua-cheia às cinco da manhã no salão nobre dos paços do concelho, iluminado apenas por uma enorme braseira de haxixe – e pelos isqueiros dos fumadores. David, vestido de branco, em sinal de pureza, receberia do edil a medalha de ouro  e as chaves da cidade, e partiria em paz a bordo de uma viatura da câmara, não identificada).
Estava a brincar… O facto é que falei apenas na atribuição da medalha, e expus a minha ideia: havia que recompensar David por todos as perdas a que é sujeito pela não creditação do seu nome nos louros de muitas glórias públicas. Não está a fazer-se justiça! Este homem merece uma homenagem por parte do seu povo, e pelos habitantes de todo o Mundo, porque não? Exagerando, merece um prémio Nobel – à porta fechada, já se vê!…
Para meu grande espanto, o presidente achou uma excelente ideia!
—  É uma inovação — confidenciou — com essa nova medalha,  Lisboa passa a ter finalmente uma atitude pioneira na luta contra a droga, que tanta falta faz em outras capitais europeias... E era um exemplo para o mundo!
E assim foi: numa cerimónia secreta, à qual tive o privilégio de assistir, David recebeu das mãos do presidente da Câmara municipal de Lisboa a medalha de mérito, justo reconhecimento pela sua contribuição decisiva em prol da cultura portuguesa do virar-de-século. Fez-se justiça!



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