gimba @ 08:53

Sab, 15/08/09

ALGUNS DIVERTIMENTOS DA FEIRA POPULAR – CONTADOS ÀS CRIANÇAS E LEMBRADOS AO POVO

“A Selva” – Combóio-fantasma em mono-carril, de visual naif e esverdeado, a justificar o nome, com muitas palmeiras de madeira, e zonas supostamente muito escuras e aterradoras dentro das quais os passageiros atravessavam “florestas” repletas de teias-de-aranha, animais perigosos, e coisas piores, como o célebre “arranhão da macaca”, que na verdade era feito por um empregado escondido na escuridão…

“Rola-rola” – Carrocel-redondel estonteante, em rampa, com módulos giratórios quadrados, fixos pelo centro, com “carrinhos” (em forma de cogumelos) presos nos vértices, que numa combinação de força centrífuga com plano inclinado, levavam os viajantes ao rubro, em rodopios por vezes violentos. Impróprio depois de jantares pesados…

“Poço da Morte” – Estrutura em forma de caldeirão, dentro da qual, o famoso Josèlito e toda a sua família aceleravam  a fundo em motos e automóveis de corrida aparentemente “colados” às paredes pelo efeito da velocidade e da força centrífuga, passando a escassos centímetros da cara dos espectadores. Um impressionante número de circo com uma demonstração grátis, no exterior – onde todas as noites Josèlito se equilibrava ao pé-cochinho na sua Honda 125 verde-escura, acelerando sem medo em cima de um tapete rolante bastante estreito. Impróprio para cardiacos.

“Panelas” Grande barracão de rifas em série, onde várias utilidades domésticas expostas nas paredes eram sorteadas a vinte e cinco tostões a senha (12 cêntimos!). O sorteio, tipo “Casa da Sorte” era feito por homens em pé, em cima dos compridos balcões, que depois da “série” vendida giravam uma série de roletas numeradas, numa grande algazarra, de feira, com um altifalante fanhoso a atraír a clientela. O prémio mais cobiçado – e o que dava o nome à casa - era um sortido completo de panelas, atadas em pilha umas às outras num sólido monobloco, que os felizes ganhadores exibiam orgulhosos durante o resto da noite, feira fora.

“Penálti” – Divertimento para pequenos e graúdos, que consistia em pontapear uma bola de futebol – bastante mais pesada que o normal – com o fito de a enfiar num buraco aberto no ventre de um “guarda-redes” de madeira, colocado na respectiva baliza – com rede e tudo – a cerca de cinco metros da marca. Prémio por golo, um penálti (copo, entenda-se), tinto ou branco.

“Pim-pam-pum” (cada bola mata um!) – Grande atracção para toda a família, constava de uma série de pequenas bolas moles, feitas com “desperdício” misturado com  pedrinhas e forradas com peúga, que depois de arremessadas deveriam acertar nuns bonecos e bonecas risonhos e indescritíveis, do tamanho de um adulto, animados mecanicamente por forma a escaparem à pontaria dos visitantes. A grande distância a que se encontravam do balcão dificultava, e de que maneira o arremesso certeiro. Por vezes formavam-se multidões, curiosas com o alarido de alguns valentões, que desesperados por não acertarem no alvo, atiravam furiosamente as bolas, que embatiam com estrondo na parede do fundo, atraindo novos candidatos. Prémio por bola no objectivo – um cálice de Porto.

“As argolas” – Atracção exclusiva para copofónicos: A dois ou três metros do balcão, uma mesa repleta de garrafas muito juntas em magote, todas de bebidas alcoólicas - do ponche ao Licor Beirão; do Triplice Âncora ao Abafado - esperava a pontaria dos candidatos, que tentavam acertar com pequenas argolas de madeira nos seus gargalos, coisa que eu, em trinta e cinco anos de visitas nunca consegui - nem vi niguém conseguir. Contudo, o prémio pela façanha seria levar a garrafa “para esvaziar com os amigos!”.

“Palácio dos espelhos” – Hilariante divertimento, sempre muito concorrido, graças ao seu enorme letreiro, com promessas de “Rir - Rir - Rir!”. O que até nem era preciso, porque no exterior, alguns altifalantes fanhosos atraíam os curiosos com as gargalhadas, captadas por microfones também fanhosos, dos ocupantes no seu interior. Mas o que é que tanto fazia rir os foliões? Uma colecção de espelhos disformes e ondulados que devolvia reflexos inacreditáveis e óbviamente cómicos a quem neles se mirava. Um “must” da Feira!

“Castelo-fantasma” – Mais um combóio-fantasma, com visual de castelo medieval, em cuja fachada ondulavam bonecos iguais aos do Pim-pam-pum, com uma iluminação sinistra, para os tornar supostamente assustadores. Para isso contavam com a preciosa ajuda do barulho tétrico e violento que o pequeno trem fazia ao saír e  penetrar nas trevas chocando directamente com as suas enormes portas de ferro azul-vivo que latejavam ruidosamente à sua passagem. Lá dentro, algumas artimanhas visuais, com caveiras e esqueletos mal iluminados, tentavam sem sucesso aterrorizar os divertidos viajantes, que, sendo namorados, aproveitavam para trocar carícias no escuro…

“Tirinhos” – Barraca de tiro-ao-alvo ostentando um conjunto ferrugento de velhas espingardas de pressão de ar, com miras vesgas e canos ziguzagueantes. Ao terceiro ou quarto tiro, feitas as compensações da paralaxe, era possível acertar no alvo – uma chapa do tamanho de uma moeda pequena, colocada no centro de uma pipa de vinho – que quando atingida pelo chumbinho, fazia soar uma campainha estridente - sinal de que o atirador tinha direito a um cálice de ginginha!

“Barcos a motor” – Réplicas fiéis do filme de Hitchcock “Strangers On A Train”, com protecção anti-choque, dada a exiguidade do pequeno lago quadrado onde em ambiente sub-iluminado circulavam em velocidade de caracol anfíbio. Supostamente criados para viajens amorosas, e dada a ausência do “túnel do amôr” imposta pelo espaço apertado e pelo regime (também apertado) de Salazar, limitavam-se a pequenas voltas em círculo, ao som deprimente e monótono dos seus motores a gasolina, envolvidos em tremendas nuvens de fumo de escape. Uma atracção, no mínimo tóxica, e grotesca…

“Pista de velocidade” – Autêntico autódromo todo em madeira com um traçado vertiginoso à volta dum “chouriço” central, onde os carros – bombásticos cabriolets americanos – com um pára-choques de lata a toda a volta, experimentavam a loucura dos 20 Km/h em rotações sucessivas, soltando enormes faíscas eléctricas ao som de mais um altifalante fanhoso, através do qual uma voz castiça e anasalada recomendava calma aos corredores. Para tornar o cenário mais parecido com uma autêntica pista de corridas, havia pintadas a toda a volta da pista, paisagens bucólicas com motivos campestres e inocentes. Perigo iminente!

“Carrinhos de choque” – Concorrentes directos da “Pista de velocidade”, os carrinhos de choque, iguais a tantos outros, em tantas outras feiras, eram uma atracção obrigatória. Era raro haver um carro vazio, e quando havia era destramente pilotado por um dos rapazes da casa, sentado no capot em posição pouco ortodoxa.
A multidão que geralmente cercava a pista gerava grande confusão nos intervalos das “corridas”, tentando chegar às viaturas vagas, e não era raro haver atropelos no começo de “nova viagem”… Alguns foliões mais espertos faziam réplicas em barro das fichas plásticas sem as quais os carros não andam, e ficavam horas em pista fazendo sorrir os empregados, convencidos que havia muito dinheiro em caixa…

“Girafas” – Enorme e ruidoso carrocel em forma de oito, também chamado “sobe e desce”, misturava no seu tapete rolante bancos de jardim com uma série de animais, como zebras, cavalos ou peixes, sendo as girafas os mais altos, o que permitia aos viajantes socar umas bolas penduradas de cabos horizontais, que quando atingidas com violência, davam várias voltas aos ditos cabos, antes de novo soco certeiro. Um inevitável altifalante tipo megafone, compunha o barulhento ramalhete com uma conversa de chacha, sempre anunciando “mais uma volta!”.

“Foguetão” – Próprio para testar a força e a masculinidade a “touros enraivecidos”, era um pesado projéctil fusiforme, sobre carris numa curva em espiral ascendente. Com um valente empurrão, deslizava pela subida. Se atingisse o topo, o que era raro, fazia tocar um sino, que dava automáticamente direito a um copo de vinho. Impróprio para meninas.

“Cadeirinhas” – Proibidas durante mais de uma década devido a um grave acidente com uma estrutura igual durante um S. João no Porto - que causou vítimas mortais -  as cadeirinhas individuais estavam penduradas por correntes tipo baloiço, a uma enorme “roda de bicicleta” horizontal, meia dúzia de metros acima. Ao girar com velocidade, projectava-as no vazio provocando grande gritaria por parte dos seus ocupantes, pois os choques entre si eram frequentes, e uma vez por outra, as compridas correntes entrelaçavam-se causando grandes confusões. Super-castiço!

“Café dos pretos” – Cópia fiel do café “Mazumbo do Kimbondo”, no bairro luandense do Sambizanga, tinha o condão de transportar imediatamente o visitante para o coração de África, apesar do cheiro a farturas da barraca contígua e do barulho dos vizinhos “aviões”. Ao ar livre, e debaixo de sombrinhas de colmo – muito úteis à noite, para conter a cacimba de Lisboa – era possível saborear um enorme copo de “café de saco” a ferver, encaixado numa espécie de cahimbo de madeira, para não queimar as mãos dos brancos. O “Xiribi” que acompanhava o café, vinha directamente de Angola, e a sua fórmula duvidosa mas letal, sempre foi mantida em segredo…

“Comes e bebes” – Mais que muitos, para todos os gostos e feitios, mas geralmente em casas de dois pisos com “terraço panorâmico”, que na melhor das hipóteses dava para dentro da Feira, e na pior, para a escura e desolada Av 5 de Outubro.
Atracção principal, sempre foram os frangos e as sardinhas assadas, cujo cheiro chegou a ser sentido em Cacilhas, em raras noites de aragem de norte. Mas havia manjares para todos os gostos, começando nas entradas, que podiam ser tremoços, caracóis, chouriços, moelas, pipis, couratos, pica-paus, etc, para acabar nos pesos pesados da culinária portuguesa: das tripas à moda do Porto ao ensopado de borrego, da alheira de Mirandela à caldeirada, passando pelas papas de serrabulho, e pelas mais expessas feijoadas. Para acompanhar? Vinhos brancos e tintos de todas as regiões demarcadas e não-demarcadas, abafados, traçados, jeropigas, moscatéis, licores, aguardentes, novas e velhas, e – pasme-se – água engarrafada, e da torneira!
Cenas de pancadaria quase diárias, geralmente motivadas por trocas de palavras e ciumeiras alcoólicas, eram grande atractivo, trazendo grandes grupos de estudantes a estes monumentos da comida e da bebida.


Álvaro Costa @ 17:34

Qui, 09/10/14

 

...e havia também o "Water-Chute"... http://www.innovativeengineersonline.com/photo/photoedited/water%20chuteS.JPG


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