gimba @ 08:42

Qui, 10/09/09

Já tenho saudades – e não são poucas – da velha Feira Popular, de Entrecampos, bastião de folia e enfardanço do mais tipico que Portugal já teve.
A Feira Popular já pertence ao passado. Àquele passado que não volta mesmo mais. Contemporânea dum certo Parque Mayer, da “Rádio Crime” (de Patilhas e Ventoínha), e de uma maneira de ser lisboeta que se apagou, varrida por doses maciças de globalização amorfa e estrangeirada - que vamos consentindo e adoptando em nome da modernidade - é mais uma daquelas riquezas que Lisboa perde no seu caminho rumo à descaracterização total que os políticos mais saloios prepotentemente nos impõem, e que as novas gerações herdam sem se dar conta do que é, ou foi, ser bom português, e neste caso particular - alfacinha.

E até há muita culpa das antigas gerações neste processo: nestes tempos de aparências falsas e ostentação obrigatória, parece que alguém se envergonhou de ser o que sempre foi, e se quis transformar no que não é - nem será nunca - com uma fachada nova e bacoca que só não engana quem conhece a antiga... É o que se pode chamar “O copo de três, disfarçado de Big Mac”.
Parece que há pudor em assumir que coisas tão sempre nossas, como é o caso do vinho – o tinto carrascão que nos levou às Indias – em doses curtas mas bem servidas, a transbordar sobre balcões de mármore manchado, não tem a mesma nobreza de uma coca-cola mé®dia em copo de plástico – muito mais “actual e civilizada”! E uma boa sandes de torresmos, para não dizer de couratos, parece não poder ombrear com carne semi-envenenada oriunda de pastos criados à conta do extermínio de florestas tropicais – coisa muito mais evoluida – com logotipo e tudo! E, claro: uma bagaceira genuina e caseira não consegue furar no apertado mercado do whisky da treta, e de preparados à base de vodka (com os mesmos sabores exóticos de preservativos usados!), com que os grandes caciques do internacional-alcoolismo nos querem intoxicar!
Porquê? Se calhar por não terem o famigerado logotipo, nem marca. E hoje em dia, ninguém quer nada com produtos não identificados - preferindo ostentar com pompa e ignorância o pechisbeque gráfico que os pequenos/grandes nomes ditam. Na realidade, é tão importante “ter marca”, que nos nossos dias até o lixo tem marca, senhores! Já não há cascas de banana nos passeios. E se houver, dizem “Banana de Colombia”! Hoje o lixo é composto por nomes perfeitamente identificados pelos monstros que os criaram, numa astuciosa manobra de marketing em que, para “maximizar as vendas e aumentar os lucros”, o produto ostenta o nome, desde a prateleira do supermercado até a trituradora da central de resíduos urbanos! O lixo é patrocinado! Pois! Por “Pepsi-colas”; por “Chiclets”, por “Mac Donald’s”, e por aí fora! O lixo, que agora é de luxo – o lixo que antes de o ser já o era, como a pescada e o calçado! Fantástico! Bestial!
Ao que parece, para colmatar a grande perda, a autarquia Lisboeta planeia brindar a cidade com um novo e moderníssimo parque de diversões nos arrabaldes longínquos da serra de Monsanto – um recinto com o pouco luso nome de “Play-qualquer coisa, tipo-center” onde não faltarão atracções de “última geração” (isto é: nada que custe menos de três ou quatro Euricos a viagem...), com a obrigatória e tão em voga “zona de restauração”, incolor, inodora e insípida, onde as castiças sardinhas serão substituídas por franganitos do Kentucky, e o tintol arroxeado em copos “de três” é definitivamente banido, e trocado por Big Coca-Colas e outros venenos em embalagens plásticas não recicláveis...
Que saudades da velha e genuina “Feira Popular”… Tão autêntica e tão castiça… Ao mesmo tempo integrada e deslocada. Chamariz de luzes e cheiros que atraia alfacinhas e forasteiros com a sua magia especial. Uma noite na Feira era preparada com grande antecedência. Era uma excitação, uma festa! Uma romaria de famílias inteiras preparada com esmero, o guarda-roupa cuidadosamente escolhido. Muitos amores nasceram nas vertigens dos seus carrocéis. Muitos casamentos se prometeram depois de sardinhadas regadas a vinho-tinto. Muitos cidadãos foram procriados durante as mil e uma noites que começavam em Entre-Campos. Muitas questões, muitos adultérios, muitas brigas, muitos divórcios dali nasceram. Mas também grandes amizades, grandes sociedades e grandes negócios foram selados com brindes nas mesas dos seus restaurantes! E tantas passagens de ano, tantos exames, tantas formaturas e doutoramentos ali foram festejados! Quantos aniversários, quantas bodas de ouro e prata ali foram celebrados? E, quantas traições, quantas perdas, quantas tristezas e quantas mágoas e misérias ali foram afogadas? A Feira era um mundo, e uma vez lá dentro, não existia mais nada cá fora! Como explicar aos novos o encanto de coisas findas e tão singelas como o “Pim-Pam-Pum”, o “Castelo-Fantasma”, ou o “Rola-Rola”? Como extrair orgulho do cheiro típico a frango e sardinha, que em dias de nortada primaveril chegava ao Marquês de Pombal? Tudo isso pertence ao passado: A macaca da “Selva” já não arranha no escuro (era um homem, que eu bem lhe via o morrão do cigarrito...). As gargalhadas do “Palácio dos Espelhos” acabaram. E o famoso Joselito deixou as acrobacias ao pé cochinho em cima da sua sempre brilhante Honda 125 verde-escura, atraindo multidões para o “Poço da Morte”! Toda a fumarada se evaporou. Fica um castiçal de divertimentos para a posteridade:  As “Girafas”, O “Foguetão”, As “Cadeirinhas”, os “Tirinhos”, os “Aviões” -  que voavam ao som do ar  comprimido dos seus braços hidráulicos, e dos gritos dos “pilotos” - aviões muito cedo substituidos por uma minúscula, patética e cara montanha russa, como “atracção principal” da Feira...
E mais: restaurantes típicos; balcões de rifas; algodão doce; orquestras de macaquinhos mecânicos tocando música a troco de moedas; o célebre letreiro “Aperte a mão ao gigante de Moçambique por 5$00!”; os barquinhos a gasolina num pequeno e escuro lago quadrado, com os seus casais de namorados, qual “Luna Park” sem o túnel de Hitchcock. Tudo acompanhado pela fantástica banda sonora de vozes nasais a saír de altifalantes decrépitos: “Mais uma corrida, mais uma viagem!”; “Carros em movimento!”; “Suba! Suba! É o Rola-rola! É para borrar a cueca!”; “Tro-tro-tro-tr’olha as panelas, panelinhas e panelões – tudo a vinte e cinco tostões!”... Tudo isto é passado, tudo isto é fado... para beber e para esquecer...
E por falar em beber, havia uma faceta bastante alcoólica na Feira Popular. A começar pelo vendedor de bilhetes e a acabar nas zaragatas de bêbedos, resolvidas ao fim da noite por polícias de nariz encarnado e olho também brilhante.  Na realidade, a Feira tresandava a álcool, odor encoberto pelo manto diáfano do frango, da sardinha, e dos “Definitivos”! A pontaria dos “Tirinhos” era recompensada com “ginginhas sem elas”! Quem enfiasse “As Argolas” no gargalo duma garrafa, levava a garrafa – aberta, de preferência! Quem marcasse um penálti directo ao buraco aberto no ventre dum guarda-redes de madeira, bebia o dito-cujo na hora! No “Café dos Pretos” não faltava o “chiribi”!  A sangria corria a jorros nos “terraços panorâmicos”. E as caricas de “Sagres” faziam parte integrante de todo o piso da feira! Uma fartazana de copofonia!
Mas o grande monumento, a meca, o altar-mor de todas as grandes bebedeiras que Entre-Campos deu ao mundo, era sem dúvida a “Tasca da Joana” - uma colorida e típica adega ribatejana, cheirando a vinho - como todas as tabernas - construida à volta de uma vaca de loiça, em tamanho natural, de cujas mamas saía “O puro leite da uva, por conta do criador”. Era uma casa espaçosa, de paredes brancas e bem iluminadas, com adornos de telha “antiga-portuguesa”, e semi-vasos de parede, em barro avermelhado, com plantas de plástico, verdes. E por cima da vaca, o menú de iguarias, escritas a azul em pequenos azulejos brancos: “Pipís à Joana”;  “Pregos à Joana”; “Moelas à Joana”; “Túbaros à Joana”, e muito mais… tudo “à Joana”!
Na casa, sem mesas, e sempre cheia até à rua, os empregados, suados e descompostos, gritavam uns para os outros atrás dos balcões corridos: “Mais três penáltis brancos!”; “Mais quatro penaltis tintos!”, enquanto viravam os seus próprios penáltis com o mesmo ritmo dos clientes, mas de uma vez só, para poupar tempo, num brusco inclinar de cabeça, regressando à posição inicial de sempre-em-pé, como se não fosse nada. O chão estava pejado de beatas, guardanapos de papel, cascas de tremoço, vinho entornado, vidro partido e lixo avulso - sinal de ocupação feroz e constante. O fandango brotava estridente e abundante dos “cornos sonoros”. A vozearia da clientela subia de volume com o correr da noite e do vinho, misturada com um altifalante propondo viagens alucinantes na vizinha “Selva”. O ruído de copos partidos com uma certa regularidade fazia parte da trilha sonora habitual na casa. E para animar ainda mais a clientela, de quando em quando os empregados agitavam com veemência o enorme chocalho da vaca, criando um clima sonoro de largada de toiros, ébrio e caótico, corroborado de vez em quando pela própria Joana, que no êxtase das rodopiantes e vertiginosas bebedeiras da clientela e do pessoal, mimava as redondezas com um valente mugido – acionado por um pedal que alguém, na “hora H”, pisava com astúcia - na certeza de que todos os foliões num raio de trinta metros não iriam querer perder a loucura que se vivia naquele cantinho da Feira!
Só que a vida tem destas coisas. Tudo o que é bom, acaba: Numa das minhas últimas visitas, em plena sexta-feira à noite, o cenário era desolador: A massa de gente que outrora entupia todas as ruas do recinto, todos os restaurantes, e todos os divertimentos, evaporou-se rumo a outras paragens - porventura mais actuais, enchendo porventura as suas monótonas e repetitivas “zonas de restauração” sem fumo, com embalagens plásticas não recicláveis, incolores inodoras e insípidas - num abandono que muito me entristeceu. E os divertimentos mais típicos e castiços - bem portugueses - eram os que estavam mais votados ao desprezo: a bola do “Penálti” lá estava, parada e quieta, esperando um pontapé certeiro. As trouxinhas do “Pim-Pam-Pum” jaziam imóveis no balcão garrido, sem ninguém que as arremessasse, o mesmo se passando com “As Argolas” e respectivas garrafas. As espingardas dos “Tirinhos”, abandonadas nos seus balcões desertos, também esperavam um atirador furtivo que fizesse abrir uma última garrafa de ginginha. Os salões de jogos, sempre apinhados de gente, que eram dos locais mais ruidosos do recinto, exibiam em silêncio mesas de matraquilhos vazias, saudosas dos seus característicos e barulhentos safanões. Mesas exclusivas da Feira Popular, sem a hegemonia dos eternos Benfica e Sporting. Mesas com bonecos do Porto, do Belenenses, do Vitória de Setúbal ou da Académica – do tempo em que havia pelo menos três negros em cada equipa, fielmente reproduzidos e misturados com os colegas “brancos”. Imóveis. Até a própria montanha russa, que normalmente tinha uma bicha onde pacientemente se aguardava pelo bilhete que dava acesso ás suas emoções fortes, ganhava ferrugem, com um ou outro casal que lá se aventurava na sua curta viagem…
A tasca da Joana lá estava, vazia também, com o balcão todo à vista, o chão impecável, e o chocalho mudo depois de muitas noites de bebedeiras, fandango, badaladas e mugidos. Já nem a vinho cheirava. Aliás, não cheirava a nada naquela artéria sempre fumegante, rainha do frango e da sardinha. Impressionante mesmo era o silêncio: Nem gritos, nem música, nem festa. A vizinha “Selva”, fechada e desmantelada já não tinha o seu altifalante. O “Rola-rola” já não rolava. As roletas das “Panelas” estavam imobilizadas em silêncio, no escuro do seu barracão, as portas fechadas. A Honda 125 verde-escura de Joselito já não rosnava nervosa no seu equilibrio precário, em cima de rolos à porta do “Poço da Morte”. E o fumo, que com a multidão dava um certo ar de metrópole oriental às ruas apertadas foi substituido por um vazio com uma nitidez definitivamente triste. Enfim: um corpo outrora com tanta vida e tanta história apresentava-se moribundo e ferido pelo passar impiedoso de novas eras e novos costumes, abandonado no seu leito de morte, como uma antiga dançarina, preterida e esquecida depois dos seu áureos anos de fama. Deixa saudades, a velha Feira Popular. Tudo isto é fado, tudo isto é passado. Paz à sua alma...








ALGUNS DIVERTIMENTOS DA FEIRA POPULAR – CONTADOS ÀS CRIANÇAS E LEMBRADOS AO POVO

“A Selva” – Combóio-fantasma em mono-carril, de visual naif e esverdeado, a justificar o nome, com muitas palmeiras de madeira, e zonas supostamente muito escuras e aterradoras dentro das quais os passageiros atravessavam “florestas” repletas de teias-de-aranha, animais perigosos, e coisas piores, como o célebre “arranhão da macaca”, que na verdade era feito por um empregado escondido na escuridão…

“Rola-Rola” – Carrocel-redondel estonteante, em rampa, com módulos giratórios quadrados, fixos pelo centro, com “carrinhos” em forma de cogumelo presos nos vértices, que numa combinação de força centrífuga com plano inclinado, levavam os viajantes ao rubro, em rodopios por vezes violentos. Impróprio depois de jantares pesados…

“Poço da Morte” – Estrutura em forma de caldeirão, dentro da qual, o famoso Joselito e toda a sua família aceleravam  a fundo em motos e automóveis de corrida aparentemente “colados” às paredes pelo efeito da velocidade e da força centrífuga, passando a escassos centímetros da cara dos espectadores. Um impressionante número de circo com uma demonstração grátis, no exterior – onde todas as noites Joselito se equilibrava ao pé-cochinho na sua Honda 125 verde-escura, acelerando sem medo em cima de um tapete rolante bastante estreito. Impróprio para cardiacos.

“Panelas” Grande barracão de rifas em série, onde várias utilidades domésticas expostas nas paredes eram sorteadas a vinte e cinco tostões a senha (12 cêntimos!). O sorteio, tipo “Casa da Sorte” era feito por homens em pé, em cima dos compridos balcões, que depois da “série” vendida giravam uma série de roletas numeradas, numa grande algazarra, de feira, com um altifalante fanhoso a atraír a clientela. O prémio mais cobiçado – e o que dava o nome à casa - era um sortido completo de panelas, atadas em pilha umas às outras num sólido monobloco, que os felizes ganhadores exibiam orgulhosos durante o resto da noite, feira fora.

“Penálti” – Divertimento para pequenos e graúdos, que consistia em pontapear uma bola de futebol – bastante mais pesada que o normal – com o fito de a enfiar num buraco aberto no ventre de um “guarda-redes” de madeira, colocado na respectiva baliza – com rede e tudo – a cerca de cinco metros da marca. Prémio por golo, um penálti (copo, entenda-se), tinto ou branco.

“Pim-Pam-Pum” (cada bola mata um!) – Grande atracção para toda a família, constava de uma série de pequenas bolas moles, feitas com “desperdício” misturado com  pedrinhas e forradas com peúga, que depois de arremessadas deveriam acertar nuns bonecos e bonecas risonhos e indescritíveis, do tamanho de um adulto, animados mecanicamente por forma a escaparem à pontaria dos visitantes. A grande distância a que se encontravam do balcão dificultava - e de que maneira - o arremesso certeiro. Por vezes formavam-se multidões, curiosas com o alarido de alguns valentões, que desesperados por não acertarem no alvo, atiravam furiosamente as bolas, que embatiam com estrondo na parede do fundo, atraindo novos candidatos. Prémio por bola no objectivo – um cálice de Porto.

“As Argolas” – Atracção exclusiva para copofónicos: A dois ou três metros do balcão, uma mesa repleta de garrafas muito juntas em magote, todas de bebidas alcoólicas castiças - do Ponche ao Licor Beirão; do Triplice Âncora ao Abafado - esperava a pontaria dos candidatos, que tentavam acertar com pequenas argolas de madeira nos seus gargalos, coisa que eu, em trinta e cinco anos de visitas nunca consegui - nem vi niguém conseguir. Contudo, o prémio pela façanha seria levar a garrafa “para esvaziar com os amigos!”.

“Palácio dos Espelhos” – Hilariante divertimento, sempre muito concorrido, graças ao seu enorme letreiro, com promessas de “Rir, Rir, Rir!”. O que até nem era preciso, porque no exterior, alguns altifalantes fanhosos atraíam os curiosos com as gargalhadas, captadas por microfones também fanhosos, dos ocupantes no seu interior. Mas o que é que tanto fazia rir os foliões? Uma colecção de espelhos disformes e ondulados que devolvia reflexos inacreditáveis e óbviamente cómicos a quem neles se mirava. Um “must” da Feira!

“Castelo-Fantasma” – Mais um combóio-fantasma, com visual de castelo medieval, em cuja fachada pontuavam bonecos com uma iluminação sinistra, para os tornar supostamente assustadores. Para isso contavam com a preciosa ajuda do barulho tétrico e violento que o pequeno trem fazia ao saír e  penetrar nas trevas chocando directamente com as suas enormes portas de ferro azul-vivo que latejavam ruidosamente à sua passagem. Lá dentro, algumas artimanhas visuais, com caveiras e esqueletos mal iluminados, tentavam sem sucesso aterrorizar os divertidos viajantes, que, sendo namorados, aproveitavam para trocar carícias no escuro…

“Tirinhos” – Barraca de tiro-ao-alvo ostentando um conjunto ferrugento de velhas espingardas de pressão de ar, com miras vesgas e canos ziguezagueantes. Ao terceiro ou quarto tiro, feitas as compensações da paralaxe, era possível acertar no alvo – uma chapa do tamanho de uma moeda pequena, colocada no centro de uma pipa de vinho – que quando atingida pelo chumbinho, fazia soar uma campainha estridente - sinal de que o atirador tinha direito a um cálice de ginginha!

“Barcos a Motor” – Réplicas fiéis do filme de Hitchcock “Strangers On A Train”, com protecção anti-choque, dada a exiguidade do pequeno lago quadrado onde em ambiente sub-iluminado circulavam em velocidade de caracol anfíbio. Supostamente criados para viajens amorosas, e dada a ausência do “túnel do amôr” imposta pelo espaço apertado e pelo regime (também apertado) de Salazar, limitavam-se a pequenas voltas em círculo, ao som deprimente e monótono dos seus motores a gasolina, envolvidos em tremendas nuvens de fumo de escape. Uma atracção, no mínimo tóxica, e grotesca…

“Pista de Velocidade” – Autêntico autódromo todo em madeira com um traçado vertiginoso à volta dum “chouriço” central, onde os carros – bombásticos cabriolets americanos – com um pára-choques de lata a toda a volta, experimentavam a loucura dos 20 Km/h em rotações sucessivas, soltando enormes faíscas eléctricas ao som de mais um altifalante fanhoso, através do qual uma voz castiça e anasalada recomendava calma aos corredores. Para tornar o cenário mais parecido com uma autêntica pista de corridas, havia pintadas a toda a volta da pista, paisagens bucólicas com motivos campestres e inocentes. Perigo iminente!

“Carrinhos de Choque” – Concorrentes directos da “Pista de velocidade”, os carrinhos de choque, iguais a tantos outros, em tantas outras feiras, eram uma atracção obrigatória. Era raro haver um carro vazio, e quando havia era destramente pilotado por um dos rapazes da casa, sentado no capot em posição pouco ortodoxa.
A multidão que geralmente cercava a pista gerava grande confusão nos intervalos das “corridas”, tentando chegar às viaturas vagas, e não era raro haver atropelos no começo de “nova viagem”… Alguns foliões mais espertos faziam réplicas em barro das fichas plásticas sem as quais os carros não andam, e ficavam horas em pista fazendo sorrir os empregados, convencidos que havia muito dinheiro em caixa…

“Girafas” – Enorme e ruidoso carrocel em forma de oito, também chamado “sobe e desce”, misturava no seu tapete rolante bancos de jardim com uma série de animais, como zebras, cavalos ou peixes, sendo as girafas os mais altos, o que permitia aos viajantes socar umas bolas penduradas de cabos horizontais, que quando atingidas com violência, davam várias voltas aos ditos cabos, antes de novo soco certeiro. Um inevitável altifalante tipo megafone, compunha o barulhento ramalhete com uma conversa de chacha, sempre anunciando “mais uma volta!”.

“Foguetão” – Próprio para testar a força e a masculinidade a “touros enraivecidos”, era um pesado projéctil fusiforme, sobre carris numa curva em espiral ascendente. Com um valente empurrão, deslizava pela subida. Se atingisse o topo, o que era raro, fazia tocar um sino, que dava automáticamente direito a um copo de vinho. Impróprio para meninas.

“Cadeirinhas” – Proibidas durante mais de uma década devido a um grave acidente com uma estrutura igual durante um S. João no Porto - que causou vítimas mortais -  as cadeirinhas individuais estavam penduradas por correntes tipo baloiço, a uma enorme “roda de bicicleta” horizontal, meia dúzia de metros acima. Ao girar com velocidade, projectava-as no vazio provocando grande gritaria por parte dos seus ocupantes, pois os choques entre si eram frequentes, e uma vez por outra, as compridas correntes entrelaçavam-se causando grandes confusões. Super-castiço!

“Café dos pretos” – Cópia fiel do café “Mazumbo do Kimbondo”,  no bairro luandense do Sambizanga, tinha o condão de transportar imediatamente o visitante para o coração de África, apesar do cheiro a farturas da barraca contígua e do barulho dos vizinhos “Aviões”. Ao ar livre, e debaixo de sombrinhas de colmo – muito úteis à noite, para conter a cacimba de Lisboa – era possível saborear um enorme copo de “café de saco” a ferver, encaixado numa espécie de cahimbo de madeira, para não queimar as mãos dos brancos. O “Xiribi” que acompanhava o café, vinha directamente de Angola, e a sua fórmula duvidosa mas letal, sempre foi mantida em segredo…

“Comes e Bebes” – Mais que muitos, para todos os gostos e feitios, mas geralmente em casas de dois pisos com “terraço panorâmico”, que na melhor das hipóteses dava para dentro da Feira, e na pior, para a escura e desolada Av 5 de Outubro.
Atracção principal, sempre foram os frangos e as sardinhas assadas, cujo cheiro chegou a ser sentido em Cacilhas, em raras noites de vento de norte. Mas havia manjares para todos os gostos, começando nas entradas, que podiam ser tremoços, caracóis, chouriços, moelas, pipis, couratos, pica-paus, etc, para acabar nos pesos pesados da culinária portuguesa: das tripas à moda do Porto ao ensopado de borrego, da alheira de Mirandela à caldeirada, passando pelas papas de serrabulho, e pelas mais expessas feijoadas. Para acompanhar? Vinhos brancos e tintos de todas as regiões demarcadas e não-demarcadas, abafados, traçados, jeropigas, moscatéis, licores, aguardentes, novas e velhas, e - pasme-se – água engarrafada, e da torneira!
Cenas de pancadaria quase diárias, geralmente motivadas por trocas de palavras e ciumeiras alcoólicas, eram grande atractivo, trazendo grandes grupos de estudantes a estes monumentos da comida e da bebida.













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