gimba @ 02:35

Sex, 09/10/09

A minha estimadíssima irmã, uma pessoa séria e honestíssima – há que dizê-lo, para bem do resto desta história – viveu fora de Portugal durante mais do que uma década. Primeiro em Macau, e depois em Bruxelas, onde constituiu família e se estabeleceu numa magnífica casa de três andares na Rue des Fidèles. As razões de tal ausência não vêm ao caso. O que aqui se conta é uma história verídica que tem a ver com o seu regresso definitivo à pátria de Camões e Pessoa…

Planeando o seu retorno a Lisboa com dois ou três anos de antecedência, e habituada ao seu pequeno mas espaçoso prédio belga, aqui procurou uma casa semelhante, tendo adquirido um imóvel das mesmas proporções em Campo de Ourique. Feitas as respectivas obras de modernização, a casa foi entretanto alugada a uma empresa que pagava uma choruda renda mensal de dois mil euros – na altura quatrocentos contos! Nunca falhou uma mensalidade, e nunca houve nenhum problema com isso. Pagavam sempre a horas e sem vacilos.Tudo sobre rodas…
   Ora, durante umas férias de Natal - as obras prontas, e a casa já alugada - o meu cunhado foi acertar umas contas com o Pimenta vidraceiro, que tem a sua loja na porta mesmo ao lado. E ao ver alguém entrar com uma carga estranha em sua casa, comenta com o homem:
— Ó senhor Pimenta, estão a meter uma cama redonda em minha casa!
— Uma ?… – riu o Pimenta. – Você ainda não viu nada… Essa já é pelo menos a terceira…
— A terceira? – espantou-se o meu compadre Manel. – Em princípio, alugámos a casa a uma empresa. Mas que vem a ser isto? Camas redondas? Aqui há coisa… Ó senhor Pimenta, eu dava tudo para ir lá dentro espreitar…
— E é que vamos já lá! – desferiu o Pimenta – Há lá um espelho num dos quartos que ainda não não foi rebitado, e aproveitamos para vistoriar a situação. Quer ver? Venha daí!
   E lá foram os dois à aventura. O Pimenta munido com as suas ferramentas, o meu compadre Manel apenas com a curiosidade, que não era pouca. Dois passos fora da loja, e tocaram a campaínha. Uma menina bem vestida abriu a porta. Aparentemente reinava a normalidade. Na entrada, outra menina com uma secretária e um computador dava ao visitante a ilusão institucional de uma  empresa como outra qualquer. Mas na divisão onde o Pimenta ía rebitar o espelho, o cenário era bem diferente, e muito pouco “empresarial” - pelo menos no sentido literal da palavra: Além da mencionada cama redonda, pasmaram-se os intrusos com um sistema de luzes psicodélicas em tons de azul e vermelho, numa alternância lenta de ambientes, e uma suave musiquinha de fundo!… Depois de muitos olhares esgazeados pelo aposento – principalmente por parte do meu compadre Manel – e colocado o espelho ao som de melodias instrumentais delico-doces, saíram calados - de volta à loja.
Fechada a porta, que as paredes têm ouvidos, conferenciaram:
—Realmente tem razão. Eu já devia ter reparado. É claro que há aqui qualquer coisa… – concluía o Pimenta.
—Sim. Eu bem dizia... qualquer coisa… - anuia o meu aturdido compadre Manel. — Bem:  o que interessa é que esta gente, seja lá quem seja, nunca falhou um pagamento da renda, já se percebe porquê… E o que se passa dentro da casa não é da nossa conta. Pagam, e mais nada. Fazem lá o que quiserem e o que muito bem entenderem. Quero lá saber… É como diz a minha mulher. Ninguém tem nada com isso!
—Apoiado – concluiu o vidraceiro. —Ninguém tem nada com isso. Só que aqui há coisa. Isso lhe digo eu! Aqui há coisa!
   E a história ficou por aqui. Nesse ano o Natal foi feliz para a minha família e para a do senhor Pimenta, e para muitas outras, decerto. A minha estimadíssima irmã e o compadre Manel voltaram para Bruxelas com os filhos, para mais um ano de labuta, para bem de Portugal e da Europa. E o assunto foi temporáriamente esquecido…
   Por esse inverno, numa gélida manhã de Fevereiro, admirava-me eu com a dura vida de quem vende jornais e revistas em quiosques ao ar livre quando me chamou a atenção uma capa do “Tal&qual”, com um dos seus escândalos costumeiros. Desta vez anunciava-se em parangonas um “Roteiro do sexo em Lisboa”, assinado pelo meu querido João Alves da Costa, o autor de “Uma noite sem preservativo”, “Vinte Mil Lésbicas Submarinas”, e outras obras-primas de estofo erótico. Nas páginas centrais, um mapa simplificado assinalava com setas os vários cantinhos do deboche na cidade das alfaces. A saber: “Alvalade – Mulatinhas escaldantes”; “Estefânia – Show lésbico”; “Graça – Rapazes musculados”; “Restelo – Executivas exijentes”, e um ponto que me acendeu uma luz de dúvida na cabeça: “Campo de Ourique – Mansão do prazer”! 
Mansão do prazer? Em Campo de Ourique? Será que é a mesma casa? Não há muitos prédiozinhos de habitação única em Lisboa, isto é: até há. Só que não é em Campo de Ourique, zona nobre onde reina a volumetria dos prédios de quatro e cinco andares, com “esquerdo” e “direito”… Se houver três casas “tipo mansão” em Campo de Ourique, já é muita fruta… o facto, é que uma delas, de certeza absoluta, só pode ser a casa que a minha irmã alugou à tal “empresa”!…
E voltei a pensar na história do aluguer, nos pagamentos certinhos, e nas camas circulares. Que coisa esta… Até que pode haver gente que goste de dormir num leito redondo em ambiente colorido, ao som de música de fundo. É possível. Agora, numa “empresa”? Nunca na vida! E os números não deixam dúvidas: três camas? Todas redondas? Uma em cada piso? Só podia ser um antro de perdição! Uma casa de meninas – ou pior – de meninos! Se era a mencionada pelo “Tal&qual”, eu não sabia. Só sei que sempre que vinha à baila o assunto, a minha estimadíssima irmã e o meu compadre Manel insistiam sempre na tecla dos «pagamentos regulares, que se lixe o resto, que eu não estou lá para ver, quero lá saber, e o que eu quero é ter o meu dinheirinho no banco todos os meses, e mais nada. E isso até agora, nunca falhou»!
Mas havia que tirar todas as dúvidas mais tarde ou mais cedo. E agora vem a parte quente: Eu à data não conhecia pessoalmente o João Alves da Costa, mas topava-lhe a cara, do “Tal&qual” e não só. Era um tipo intressante e misterioso, com o seu cabelo comprido e liso, algo esgrouviado e ralo, com os seus óculos redondos, amarelos ou azuis, com bastante graduação, por cima do bigode beatle, e dum laçarote “à homem de letras”. Ainda por cima catedrático em vestimentas de látex, chicotes, e outros utensílios domésticos pouco ortodoxos como são as “contas vagino-anais” – uma espécie de terço com esferas de diferentes tamanhos unidas por um fio, usadas pelos crentes que têm o sexo por devoção mor… Um dia havia de tirar-se a limpo se a dita casa era realmente a “Mansão do prazer” do seu artigo do “Tal&qual”…
E esse dia acabou por chegar! O Luís, dadas as suas características de “homem de letras, doutorado em letras, sexologia e seus derivados escatológicos”, foi um dia entrevistado no “Cabaret da Coxa”, vil programa televisivo de entertenimento e diversão de cuja equipa me orgulho de ter feito parte. Na hora das apresentações, tratou-me com grande à-vontade, como se já me conhecesse efectivamente há muito tempo. Mais: descobrimos pontos em comum: ele tinha sido músico – baterista, só pode – no grupo “Jets”, uma jóia da música pop portuguesa dos anos sessenta do século passado. E trazia com ele um single, que foi imediatamente posto a tocar! E a conversa andou à volta de música, anos sessenta, outros grupos como “Os Chinchilas”, e não só… Sexo também, obviamente… A distância entre nós, que eu pensava ser muita, encurtou para níveis de cumplicidade. E todas as barreiras cairam. E não se pense que por ser uma autoridade em actividades eróticas e práticas lascivas, o João é um homem de baixo nível, inculto. Pelo contrário! Veja-se o seu invejável currículo académico e a sua enorme colecção de bolsas de estudo nas mais conceituadas universidades da Europa e dos Estados Unidos. Para que conste, aqui afirmo solenemente que o João Alves da Costa é das pessoas mais delicadas e de fina educação que me foi dado conhecer. Um autêntico gentleman, algo excêntrico, confesse-se. Não há muitos gentlemen em Lisboa com conhecimentos profundos de látex, vibradores e dominação – bateristas, ainda por cima! Mas não toquei no assunto. Só conhecê-lo foi um grande prazer – e uma honra! Oportunidades futuras para abordar a questão não faltariam… E assim aconteceu: Encontrei-o um dia destes numa casa-de-chá no Largo do Carmo, e mais uma vez se desfez em delicadezas, apresentando-me a sua adorável esposa – e companheira de uma vida de swing e pecados vários, com chicote e sem ele. Aí, já relativamente à-vontade com o meu “colega”, naquela camaradagem que só os músicos conhecem, lembrei-o do seu famoso artigo do “Tal&qual”. Era chegada a hora de dissipar todas as dúvidas. A hora da verdade: Lembrava-se do artigo? Sim, claro; lembrava-se... E lembrava-se da "Mansão do  prazer de Campo de Ourique? Obviamente. Grandes noites - e dias - lá tinha passado! Então a mansão era na rua “tal”? Era sim senhor! Uma casa “assim, assim e assado”? Claro! Exactamente isso! Como é que sabes? Também lá ias? Conheceste a D.Gina? Agora mudou-se para Alcântara…
Eureka! Confirma-se! A casa “assim, assim e assado”, na rua “tal” em Campo de Ourique, onde a minha respeitável irmã vive actualmente com o meu compadre Manel e os seus santos filhos, depois do longo exílio, foi nos entretantos uma casa de prazer!! A casa cujos cantos tão bem conheço, e onde adivinho camas redondas – nos três pisos! – luzes coloridas e música ambiente, com o meu amigo Luís Alves da Costa em orgias de látex e dominação sado-masoquista com outros casais swingers e devotos do terço vagino-anal! A “Mansão do prazer em Campo de Ourique – o mundo é pequeno – é afinal a casa pacata onde a minha inocente família comemora consoadas e aniversários! Com móveis “normais” – armários, mesas, cadeiras - em baixo - e camas “normais”, rectangulares, em cima. Uma existência honesta dentro dos cânones sociais vigentes. Confirma-se, senhor Pimenta: você viveu três ou quatro anos, paredes-meias com um verdadeiro bordel – a famosa “Mansão do prazer” da   D. Gina! Quem diria, hein? Afinal, você tinha razão! Ali “havia coisa”!!!




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