gimba @ 17:53

Seg, 08/02/10

Pode acontecer a qualquer um. Você tem um casamento estável, uma família feliz e uma posição invejável como director num banco espanhol. Tudo sobre rodas. Porém – a vida tem destas coisas – está prestes a acontecer um pequeno grande caso com uma morena deveras interessante que lhe tem andado a dardejar olhares pecaminosos lá no ginásio. Mais tarde ou mais cedo haveria de  chegar o dia em que aquela “reunião até tarde”, que nunca foi mentira, passaria a ter um segundo sentido: Você vai ter realmente uma “reunião”, que vai ser – como sempre foi – “até tarde”, mas agora os negócios são outros: O seu “homólogo de Madrid” é afinal do Bairro Azul, e não é “homó...” nada. É uma mulher!

Uma pessoa com a sua inteligência, o seu estatuto e a sua criatividade não vai com certeza querer que um pequeno grande affair como este se resuma a um overnight clandestino por entre os lençóis de linho barato de um quarto de hotel perdido numa área de serviço da A5. Você sabe que merece mais. Muito mais. Até porque há algo de perigosamente romântico numa traição, e existe sempre a tentação indomável de provocar a sociedade e o mundo, ostentando publicamente o pecado, na forma de uma amante, numa atitude “quero, posso e mamo”, passeando com ela de mãos dadas à tardinha pelo Chiado...
Mas, como é bom de ver, isso é totalmente impossível. O mundo é um T1, Lisboa é uma aldeia, as paredes têm ouvidos, há paparazzi por tudo quanto é sítio, e a última coisa que você deseja é que uma fotografia na capa de um tablóide possa arruinar de uma assentada o seu casamento, a sua carreira e a sua reputação!
Entre o (c)oito do hotel da A5 e o oitenta do chá com beijinhos em plena esplanada da “Brasileira” existem soluções sensatas no meio-termo. Aparentemente, a zona de Lisboa tem mil e um recantos românticos onde se pode ter um flirt decente sem dar de caras com familiares, amigos, delatores, inspectores da ASAE, fotógrafos indiscretos, e toda uma súcia de gentinha inoportuna capaz de nos estragar o dia – e o resto da vida!
Mas terá mesmo? É que por muito que se dê voltas à cabeça, fica deveras difícil encontrar um sítio para um simples jantar, que se quer romântico – em ambiente requintado, num local bonito – mas ao mesmo tempo totalmente secreto e incógnito. Mesmo em retiros improváveis, como a “Choupana”, o “Saisa”, eventualmente o “Mónaco”, ou até “O Escondidinho do Monte Estoril”, há sempre a possibilidade de sermos descobertos – e denunciados!
Permitam-me que dê uma sugestão neste capítulo. Conheço o último local do mundo onde você poderá ser apanhado a jantar com a sua concubina; um covil ideal para amantes, conspiradores, revolucionários, terroristas internacionais ou simples apreciadores de peixe grelhado e vinho branco. É um sítio cheio de cachet, com uma vista absolutamente deslumbrante de Lisboa, um serviço personalizado e original, marisco vivo, um menú de iguarias de se tirar o chapéu, uma lista de vinhos irrepreensível e preços bastante mais realistas que muitas marisqueiras de cartilha nas Portas de Santo Antão! Qual fantasia feita realidade, este local paradisíaco é tão pouco frequentado que temos a impressão de estar sozinhos numa ampla sala de jantar particular com vista para o Tejo, como se a tivéssemos reservada, só para nós. Parece mentira, mas não é!
Falo-vos da ”Floresta do Ginjal”, um antigo templo da caldeirada, como tantos houve em Cacilhas – imortalizados pelo “Fado Maravilhas” – mas que, com o tempo, tal como as verdadeiras caldeiradas (cozinhadas com catorze espécies de peixes do Tejo) foram desaparecendo. A “Floresta” tem a enorme vantagem de estar num primeiro andar mesmo de frente para o rio, com os braços e os terraços abertos para Lisboa, pelo que da sua janela panorâmica poderemos detectar qualquer intruso mal intencionado que se atreva a farejar-nos as redondezas e as intenções. É o esconderijo ideal! Não tem espaço para estacionamento automóvel mas você pode trazer a sua lancha Bayliner Capri de 1950 e ancorá-la mesmo à porta, ao lado do terminal dos cacilheiros. Sem filas, sem portagens e sem brigadas de trânsito da GNR. Se houver outra lancha amarrada no pequeno ancoradouro é sinal de que provavelmente um “homólogo” seu já descobriu este paraíso e estará também em flagrante delito, dando a sua facada numa boa corvina...
Ao contrário de todas as populares petisqueiras de Cacilhas, viradas para o desolado e pouco romântico terminal de autocarros suburbanos da margem sul – onde há probabilidades de dar de caras com a massagista do health club da sua esposa – a “Floresta” está no passeio mais discreto do cais do Ginjal, de costas para o subúrbio, de frente para Lisboa, ocupando um prédio de três pisos, todos eles votados ao lazer, todos eles com uma vista soberba. No primeiro fica o restaurante propriamente dito; no segundo uma sala de baile, onde há bailes diários, ideal para fazer a digestão ao som sensual do cha-cha-cha ou da rumba (só esta sala – e o que lá se passa – daria um artigo de fundo de várias páginas...). O terceiro piso está desactivado, mas eu sugeria ao proprietário que o transformasse em meia dúzia de quartos panorâmicos e luxuosos. Seria um investimento garantido!
A entrada no éden faz-se através de uma escadaria de inclinação suave e piso fofo, numa alcatifa em tons de azul-marinho. As paredes e o tecto desta subida aos céus são forradas de mil conchas de vieiras, que nos dão a impressão de estarmos a entrar nos aposentos secretos do capitão Nemo. Lá em cima, numa das mesas da magnífica sala de jantar com três lados envidraçados, uma vista de Lisboa em cinemascope tridimensional espera por vocês!
O plano é simples: ela vai de cacilheiro, como tantos milhares de incógnitos, até ao cais do Ginjal. Você “pesca-a” trezentos metros ao lado, na praia das lavadeiras – uma das poucas praias de Portugal viradas a norte – frequentada apenas por pescadores de tainha que, em princípio não vão contar nada à sua mulher. Um beijo tórrido e um Martini, já a bordo, ao por do sol em pleno Tejo, antecedem a chegada triunfal ao mini-ancoradouro protegido pelo bulício das chegadas e partidas das carreiras fluviais da Transtejo. É o vosso primeiro encontro secreto!
Agora a parte saborosa: Sobem ao restaurante para um jantar, que se quer memorável, à luz das velas. Lá fora, do lado nascente cresce uma lua cheia que enche o estuário com aquela luz prateada exclusiva dos romances clássicos. Tudo se conjuga para uma noite perfeita. A sala, como sempre, está quase vazia. As mesas, com as suas toalhas impecavelmente brancas, estão alinhadas, as velas acesas, como uma plateia de fiéis, devotos a Lisboa. De repente você ouve uma voz familiar vinda da mesa escondida pela chaminé da lareira e – surpresa das surpresas – vê a sua mulher, que, usando precisamente o mesmo estratagema, está a jantar à luz das velas com uma – e não um – amante! Afinal, embalado pelo êxtase do seu primeiro encontro secreto, você nem reparou que a outra lancha no ancoradouro era a dela! A sua esposa, a sua querida alma gémea estava a ter – também ela – o seu primeiro encontro secreto. E com quem? Precisamente com a massagista que você tanto temia encontrar em Cacilhas, e que – o mundo é realmente um T1 – viajou no mesmo cacilheiro que a sua dulcineia! (ver epílogo na pág 156)

Epílogo – Esta história de coincidências é demasiado improvável para ter um final infeliz. Fica o desfecho ao critério do leitor. Quer-se uma solução pacífica. Pacífica e conciliadora. Para mim, conversavam e entendiam-se. Comiam juntos umas lagostas, dançavam umas rumbas no piso de cima e podiam acabar todos na mesma lancha, ao luar de Junho, Tejo dentro, num escaldante ménàge à 4 regado a Veuve Clicquot – uma autêntica e verdadeira “reunião até tarde”. Pode acontecer a qualquer um! Acham bem?




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