gimba @ 12:22

Qua, 25/11/09

Por motivos profissionais tive que deslocar-me a Barcelona – a bela capital da Catalunha, aninhada e protegida pelas suas montanhas.
O hotel onde fiquei não podia ser mais central – o Prestige, no Paseo de Gracia, mesmo em frente àquela que considero a mais bonita fachada de Gaudí (diz-se Gaudí), a “Casa Batlló”.

No caminho do aeroporto para o centro, embrulhado nas bichas do trânsito caótico, durante o pára-arranca, pus-me a reparar nas bonitas fachadas da Gran-Via. Uma beleza. Casas do princípio do século (XX…) de fino recorte arquitetónico ladeiam a avenida com ar imponente e sóbrio. Uma característica da cidade, é o facto de no seu tecido quadriculado todas as esquinas serem “cortadas”, o que dá a cada cruzamento um ar de pequeno largo, desafogado e iluminado – o mesmo se passando nas cidades satélites dos arrabaldes, com uma dimensão menor.
Desde logo me saltou à vista a unidade visual do conjunto, sem interferências “modernas” e sem agressões recentes. Os prédios mais “jovens” serão dos anos cinquenta e em tudo se enquadram nos outros, como que imitando-os. O taxista chamou-nos a atenção para o facto de o ayuntamento estar em cima do acontecimento, promovendo e ajudando em obras de restauro de alguns imóveis mais envelhecidos, para benificiar e salientar as fachadas. Os cinemas tiveram que prescindir dos seus telões, ficando a publicidade aos filmes reduzida a uma faixa estreita com os títulos dos mesmos. Tudo para salvaguardar e valorizar a arquitectura original, que no caso, por exemplo, do Coliseo, é genial. Um regalo para os olhos. Tudo é bonito. Não fosse Barcelona a cidade dos arquitectos e dos designers. Em pleno centro, as lojas de grandes cadeias como a Gucci ou a Zara (diz-se Sara) são um reflexo da pujança e criatividade dos seus decoradores. Um autêntico deleite visual. Aliás toda a cidade é um consolo para a vista. Vale a pena ter os olhos bem abertos em Barcelona! O próprio hotel Prestige, por detrás da fachada clássica guarda uma decoração ultra-moderna com detalhes de design em tudo o que é sítio, numa rotura assumida com o passado, mas tendo como denominador comum a beleza. Moderno pero bonito! Saindo à rua, com o vagar de um turista, pude observar com calma toda aquela harmonia. Cada casa mais bonita que a outra, com muita arte-nova pelo meio, e detalhes deliciosos do chão aos telhados.
Inevitávelmente surge a comparação com Lisboa, e a primeira sensação é de autêntica vergonha, quase culpa. Que desleixo arquitectónico. Que caos, que falta de unidade, que destruição irreparável! Como foi possível deixar a Avenida da Liberdade, por exemplo, a mais nobre da capital, chegar ao estado em que se encontra? Desfigurada e autenticamente violada na sua traça original por mamarrachos feios e deselegantes, numa agressão bárbara, impiedosa e deselegante, cheirando a negociatas pouco claras entre empreiteiros mediocres e autarcas ainda piores. E não podemos apontar o dedo a nenhum edil em particular. Todos são culpados, na sua conversa fiada de “querer o melhor para a cidade”. Eles não quiseram o melhor para a cidade. Quiseram apenas o melhor para uma parte minúscula da cidade, de preferência traduzido em números, isto é para as suas contas em agências bancárias! Dizemos cobras e lagartos da ditadura de Salazar e da “primavera” marcelista, mas o que é facto é que nesses tempos existia uma lei que proibia terminantemente qualquer construção nova nas avenidas principais de Lisboa. Está visto que Salazar e Caetano roubavam noutro lado…
Não sou contra o progresso e a modernidade, pelo contrário: apoio vigorosamente intervenções vanguardistas, desde que ajuizadas e com razão de ser. Lisboa não pode ser Barcelona, que optou pela manutenção da arquitectura original. Lisboa decidiu intervir com novidades. Seja. Mas interveio mal. Muito mal mesmo. E as “novidades” não são nada boas. Pior: são péssimas. Não têm pés nem cabeça. Não têm nenhuma ligação à traça da cidade. Não são cúmplices dos vizinhos. Estão vergonhosamente sós, emproadas do alto dos seus mais que muitos andares de alumínio e vidro, desesperante e irreversívelmente definitivas! A lógica, para não estragar o conjunto mal misturado – e a autarquia está a cumprir o plano à risca – será eliminar todos os prédios “velhos” ou “bonitos”, e em seu lugar colocar mais mamarrachos igualmente feios e deselegantes, criando assim a imagem da verdadeira Lisboa do séc. XXI: feia e parola, numa imagem de novo-riquismo, paraíso dos patos bravos, e de antropólogos estrangeiros que para cá virão estudar a curiosa “nova (des)harmonia arquitectónica”!
Veja-se o caso da Avenida da República, mais uma artéria outrora nobre, de prédios robustos e vivendas apalaçadas. Tirando o quarteirão da pastelaria “Versalhes” - que se mantém intacto, como uma peça de museu, para as novas gerações se darem conta de quanto a sua cidade já foi bonita no passado - a selvajaria urbana sufocou as poucas casas originais! É que já não há salvação possível, afogadas em torres incríveis de tão feias e deslocadas. Olhe-se o quarteirão do “Galeto”: começa na Duque d’Ávila com um belo prédio de esquina, do arquitecto Tadeu Guedes, a que se segue o da antiga pastelaria Colombo – hoje manjedoura Mc Donald’s – igualmente bonito, como se fosse gémeo do primeiro (Arq. Martins Pessoa). Depois é o descalabro total. Um autêntico acidente. Um ultraje! Ao prédio do próprio Galeto, do pior que os late sixties pariram – e que bem podia ser na Amadora ou em Benfica - segue-se um outro sem qualificação possível, chumbado à partida por qualquer universidade de arquitectura onde ainda resida uma réstea de bom-senso. E para acabar em beleza – neste caso, muito longe dela (a milhas!), um torreão inqualificável, deslocado, de estética péssima e volumetria arrogante, albergando, vejam só, uma entidade estatal! E estou a falar de um quarteirão que não é dos piores. Entre a Av Elias Garcia e a Barbosa du Bocage, do lado poente, o desastre é completo. Assume proporções de calamidade nacional! Como repararam não menciono os nomes dos arquitectos, porque pura e simplesmente não existem. Estas pobras-primas saíram do bloco de esquiços dos empreiteiros mais manhosos e ordinários que a autarquia, reles, conseguiu desenterrar!
Av. Fontes Pereira de Melo, aspas aspas. Contam-se pelos dedos de uma só mão as casas antigas que ficaram de pé. Aqui a câmara está já muito perto do seu objectivo destruidor. E não bastava deixar de pé o palácio Sotto Mayor. Para dar um toque personalizado à coisa, deixando a sua assinatura manhosa e única, o bosque centenário que o rodeava, frondoso e romantico, foi à vida. João Soares é fixe!…
Avenidas novas: mais umas páginas negras do catálogo camarário “como dar cabo de um belo bairro em três décadas”. Um inacreditável mostruário de mau-gosto-a-martelo, numa estranha competição tipo “o meu prédio é muito mais feio que o teu”. Afastados os residentes e instalados os serviços, de noite torna-se  um bairro-fantasma, ideal para actividades criminosas, e de dia um formigueiro de gente que alí não pertence, feia e maioritáriamente suburbana, inundando positivamente (neste caso, negativamente!) a zona, com as suas “baratas de lata”, espalhando o seu cheiro de perfumes ordinários e pejando os poucos metros livres que deixam nos passeios com beatas e lixo avulso. É a imagem de marca do Portugal moderno!
Um olhar atento pela cidade, e é o escândalo. Isto sim, é uma actividade criminosa! À sucapa, de mansinho, aqui e ali, isto é: por toda a parte, há prédios que estão a dar o último suspiro, e não é difícil adivinhar o que lá vem: mais mamarrachos ainda mais feios e deselegantes, num processo imparável de destruição maciça, dando-nos o desejo mórbido que o terramto de 1755 se repita já para a semana que vem, de preferência com mais uns grauzitos na escala de Richter, e que o inevitável incêndio consequente, engula de vez todos os autarcas traidores, para que das cinzas nasça um novo Marquês de Pombal, com a visão de futuro qure a cidade e o país merecem. Que vergonha, Lisboa!


 



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