gimba @ 02:46

Sab, 10/01/09

O Bairro-alto, tal como o conhecemos hoje - enorme e povoada metrópole da noite alfacinha - era por alturas do pós-25 d’Abril um sítio inseguro e perigoso, paraíso por excelência da prostituição e chulagem da mais decadente que Lisboa já viu. Terreno proibído a estranhos, consentia apenas entrada a jornalistas e a estudantes do conservatório, sendo todos os intrusos ao negócio da carne afastados amávelmente do local – polícia inclusivé! Era um território impenetrável, de “facas na liga”, absolutamente fora da lei!

Como é que se passou lentamente de uma freguesia marginalizada e mal iluminada, com alguns tugúrios a pontuar a escuridão do seu quadriculado matreiro – que o Bairro sempre foi da noite para a autêntica algazarra luminosa de hoje em dia? Como é que tudo começou? Quem foram os primeiros aventureiros do Bairro? Quem foi o primeiro agitador da noite que desafiou a ordem instalada? Como é que uma formiga, devagarinho, devagarinho gerou um formigueiro num ninho de vespas? Como eram os pioneiros que a pouco e pouco chegaram ao bairro e se foram instalando de forma tão definitiva? Como começou uma ocupação sorrateira que se tornou irreversível até à erradicação do comércio da carne? É uma looooooonnnga história - já a seguir nestas páginas!
Zé da Guiné terá sido o primeiro destemido a enfrentar a atitude feroz dos locais, ao instalar-se de armas e bagagens no a partir daí lendário Souk, primeiríssimo local da movida que ali nasceu. Reinava o ano de 1979. Depois de ter estado ligado ao período áureo do Brown’s – mítrica discoteca punk na zona da Av de Roma - Zé decidiu mudar de ares, e arriscar no perigoso tecido da R. Diário de Notícias, instalando-se no Souk, e arrastando consigo a influenzza da altura para um novo terreno virgem e fértil! Mas era inevitável que o foco de rebelião não alastrasse para os arredores. O Souk era o Souk, e na altura não havia outro sítio! O resto do Bairro permanecia obscuro como uma nuvem misteriosa de perigos  e ilegalidades…
Por voltas de 1977, o ponto de encontro noturno de meia Lisboa era apenas a pacata cervejaria Trindade, com o seu balcão comprido sempre cheio até rebentar pelas costuras. A cerveja corria a rodos. A revolução era jovem. Toda uma geração vivia num auge de mudança, numa agitação positiva e contagiante. O ambiente era ruidoso e saudável, mas o “traz outro amigo também” fez com que lentamente a clientela aumentasse para uma multidão que começou com o tempo a ficar apertada e desconfortável, e que acabou por transbordar para estabelecimentos limítrofes como A Pérola, ou o Estibordo. Chegadas as duas da manhã, as alternativas não eram muitas: Jamaica, ou Bolero, sendo o Zodíaco ou o Barracuda  - ou o próprio Brown’s - alternativas mais radicais. Parque Mayer e cabarets eram frequntados por uma outra geração, mais experiente, menos jovem, e de alguma maneira mais abastada.
Certa noite, um grupo de rapazes, do qual eu fazia parte - farto dos apertos da Trindade e frequentador agora mais assíduo do Estibordo, decidiu já um pouco a quente continuar a noite fora dos locais estabelecidos, aventurando-se  no desconhecido. O Bairro-alto estava mesmo ali ao lado, e apesar de ser um labirinto hostil, haveria de encontrar-se um sítio onde se pudesse tomar algo depois das duas da manhã sem correr perigo de vida. Não se há-de levar uma facada… Desconhecedores da geografia e toponímia do local, peruntou-se a um polícia em pleno Largo da Misericórdia:
—Boa noite, Sr. guarda. Não conhecemos muito bem a zona. Sabe dizer-nos de algum sítio, assim calminho, onde possamos beber um copo a esta hora?
—Só se fôr no Arroz-doce…¬¬—repondeu o polícia, enfadado com a nossa inocência e ignorância.
—E isso onde é que fica?
—Então… é na esquina da R. da Atalaia com a Travessa dos Inglesinhos...
—Chinês, Sr. guarda. Chinês… É para cima ou para baixo?


DESBRAVANDO O “ARROZ-DOCE”

Depois de um “Sempre em frente até ao fundo, depois vira à direita, e fica depois da segunda esquina…”, o nosso grupo entrou heróicamente pela travessa da Queimada, pasmando-se por ver o Café Luso, como uma ilha civilizada no meio dum mar selvagem e traiçoeiro. E progredindo em direcção ao miolo do Bairro, lá se deu com a espelunca, com o seu letreiro fracamente iluminado por uma luz amarelada: “Arroz-doce Vinhos e petiscos”. Que local sinistro...
De trás duma cortina escura e sebenta vinha o som de música e vozearia. Pelas frestas podia adivinhar-se um ambiente iluminado por luzes encarnadas e azuis - decerto perigoso para rapazinhos imberbes. É com certeza um antro de má-vida. Mas já é demasiado tarde para fazer meia-volta. Não era isto que procurávamos? Quem é o primeiro a entrar?
Transposta a cortina, o grupo entrou cauteloso naquele ambiente estranho. Era mais que certo que alí havia “carne à venda”, e à vista de todos! E por uma certa porta, que dava para umas certas escadas - que levavam a um certo primeiro andar - o vai-vem de “casais” era evidentemente regular. Sentimo-nos  num filme: aqui estamos nós, em terreno “proibído”, no embalo das luzes avermelhadas, com uma velha máquina de discos brindando os presentes com boleros e outros sucessos do tempo da Maria Caxuxa… somos “absolute beginners”, e isto é o inferno!.
Pedidas umas cervejas, servidas por uma rija mulher com cara de poucos amigos, abancou o grupo ao lado da juke box, de onde brotava música “que não vinha no mapa”. Encantados com os títulos à escolha, maioritáriamente fados, e canção ligeira – radicalmente distantes da música que consumiam – logo puseram uma canção de Joselito, o menino-prodígio da Espanha “franquista”, com o seu exito eterno: “Mi titio Fernando”. Era a escolha mais extravagante da lista. E já que o ambiente era surrelista, porque não o Joselito? Era a escolha ideal!
Este grupo era assim: Ingénuo e aluado. Sem dar conta que tinhamos mudado radicalmente o ambiente reinante, e rindo descontroladamente da voz agudisima e irritante da gravação, nós, jovens verdes a querer passar despercebidos num ambiente de ”profissionais” demos logo nas vistas. Uma “funcionária” feia, com um ar ordinário e uns enormes óculos graduados, acercou-se e perguntou com ar ameaçador:
—Foram vocês que puseram esta música? Vocês gostam disto?
Pânico na mesa. O perigo era eminente… Mas a honestidade dá sempre frutos, e a resposta foi: —Sim. Isto é giro que se farta! São quatro cervejas, por favor…
Carrancuda, a mulher engoliu a resposta, e decidiu não argumentar, talvez espantada com tanta espontaniedade: —Então, vocês gostam disto, a sério?…
Tão sério tão sério, que voltámos logo na noite seguinte! O primeiro embate,  não tinha sido tão “violento e perigoso” como se pensava, e acabou afinal por resultar numa das mais memoráveis madrugadas das nossas vidas, em que todos os inacreditáveis discos da máquina foram postos a tocar, e saboreados num extase descontrolado. Este sítio era lindo, era diferente, tinha mulheres medonhas e homens estranhos, e estava-se muito melhor aqui - com o Joselito o José Malhoa e o Marco Paulo - do que no Estibordo ou na Trindade, em conversas intelecto-alcoólicas inconclusivas…
Outros grupos de outros aventureiros lá acabaram por ir parar. E o boca-em- boca deu em que no curto espaço de alguns meses, o Arroz-doce se tornou definitivo local de romaria, numa invasão progressiva, pacífica e tolerada, que mudou para sempre os costumes da casa, e de todo o Bairro, e por conseguinte, da cidade!

(continua, já no “Frágil”)



jose amorim @ 04:49

Qua, 22/08/12

 

sou um dos pioneiros do bairro,tempo do souk e do barracas do barbarela etec e gostava de contactar ouro pessoal desse seculo glorioso,fica o meu contacto





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